April 14, 2012

Um dia

Hoje foi um daqueles dias.

Em que eu me peguei chorando enquanto escovava os dentes.

E sei que não estou chorando por você.

Tive um dia difícil. Um dia pesado. Um dia dolorido.

Eu choro por este mundo fodido.

E eu pensei em você porque por poucas semanas, você me amou ou finguiu me amar como se pudesse me entender. Como se realmente me entendesse.

Eu ia chegar em casa, ia te encontrar, com um sorrisão besta no rosto, a cozinha bagunçada.

Você só com aquelas samba-canção fudidas, que você usava como bermuda, e quem sabe, até ja enchendo a cara. Enchendo  a cara para ter coragem de me encarar, quem sabe? Ou de viver consigo mesmo, se olhar no espelho, enquanto fingia e eu construia uma vida de mentira.

Mas eu não sabia, ou fingia não saber.

E você ia me ouvir, me abraçar, me fazer uma caipirinha, a gente ia tomar um banho, ia rir, eu ia chorar, e você ia me consolar.

E dizer que não podia mudar o mundo, mas podia fazer a nossa Zyon.

E hoje eu sinto falta disso.

Ter alguém para me abraçar, dizer que eu faço a diferença, mesmo que seja mentira, mentira, como tudo na vida parece ser, Mentira, dor, caos.

Eu hoje estou afundando.

E não é por sua causa.

Mas hoje, lembrar de você faz tudo ficar pior.

E eu queria que você soubesse disso.

 

March 8, 2012

Malabarista

Hoje no sinal, voltando do trabalho, eu vi um malabarista, desses de sinal, que fazem acrobacias equilibrando pequenos bastões em chamas. Ele usava chapéu, tipo cartola, e uma calça xadrez, e me lembrou você. E eu ri. Eu ri lembrando das suas ideias malucas, do seu jeito de me abraçar, do seu sorriso quando eu chegava, que rivalizava com o abanar louco do rabo da cachorra.

Eu ri, sozinha no carro, e dei cinco pratas para o malabarista.

Ele me provou que estou curada. Que apesar de tudo, da tristeza, do rancor, da mágoa, do ódio que me consumiu, eu sarei. Sarei! Aleluia, irmões. Lembro de você zoando os crentes, e me irrito. Lembro de como eu tinha que me equilibrar entre a minha vida real, e a nossa vida. Lembro de você criticando todos os meus amigos como burgueses alienados, e minha família, mesmo saco, e ainda me irrito, mas hoje eu ri.

No sinal, quando vi um cara que era igual a você, eu ri. Eu ri alegre, não sarcástica ou irônica. Eu ri, espontânea.

Eu percebi que ainda posso te stalkear, as vezes, e não me machucar mais. Posso apenas sorrir diante do que hoje acho pueril.

Posso hoje ser eu mesma, sem muitas máscaras.

Posso te agradecer, pelo carinho que houve, pelos sorrisos que trocamos, pelo riso, pelas bebedeiras, pelas trepadas fenomenais, pela re-descoberta de mim mesma.

Não sei se agradeço a você ou ao malabarista desconhecido.

Mas estou bem. Estou mesmo.

Estou feliz, hoje, porque não confio em quem é feliz todo dia, assim como, copiando sua frase, não confio em quem não bebe cerveja: é uma pessoa capaz de tudo!

Estou dormindo, acordando, brincando com os bichos, trabalhando, produzindo, me divertindo, brigando, e não mais chorando.

Não sei quando isso ocorreu. Há um ano, te amava loucamente. Há seis meses, sofria e queria morrer. Há um mês te negaria uma gota de água no deserto. Ontem, dizia que queria te ver enquadrado, na perfeita família de comercial heteronormativa.

Hoje? Hoje eu só pensei em você quando vi o malabarista de calça xadrez.

Amanhã? Quem sabe. Eu sei de hoje, hoje sei de mim.

E isso me basta.

January 14, 2012

Ano Novo

Ano novo.

Eu achava que nunca ia passar.

Que sempre ia sofrer por ele, sempre o procurar.

Mas não.

Acabou, finalmente.

Mesmo encontrar, do nada, no MEU caderno de anotações, as provas de que ele foi desleal, filhodaputa, escroto, e que planejou encontrar o seu “novo amor eterno”, com anotações do telefone dela e de outros contatos, não me feriu. Minto. Mas foi libertador.

Por isso escrevo. Não porque estou rancorosa, ferida, magoada, rejeitada.

Mas porque isso não teve nenhum impacto na minha vida.

Os sucessos ou as derrotas dele não mais me interessam.

Hoje o busquei, de curiosidade. Como um experimento. Para saber o que sentiria, ao ver fotos e declarações de amor, expostas na rede, como um dia estiveram expostas pra mim.

E nada.

Ano novo.

Tanta coisa, tanto sentimento, tanta dor.

E como disse a Borboleta:

“Estou plena é de felicidade. Felicidade não é alegria, fui descobrindo, ao mesmo tempo que ela ocupava meu ventre. Felicidade não exige riso, não exige viço, não precisa de exibição. Felicidade é pra dentro, quase tímida, implodindo o frágil corpo num arroubo. Felicidade é matrona na porta de casa. Não tem sorriso nem euforia, tem a espera do marido que regressa à casa, cansado. Felicidade é maré alta.” Borboletas nos Olhos

Felicidade.

Não é alegria.

Não é estar apaixonada.

Não é acreditar que é retribuida.

É tanta coisa, e não é descritível.

É crível, só isso.

Palpável.

É se bastar, mas ter espaço para o outro, para os outros, para a preocupação e o cuidar, para o compartilhar e o dividir, para o egoísmo e o altruísmo.

Eu sou boa.

Quis ser má, quando foram maus comigo.

Mas essa não sou eu.

Quando chega a vazante, eu sou de Câncer.

Tenho minhas memórias e meu aconchego.

E tenho meu sorriso.

A vida segue.

A maré vai.

Cheia, vazante.

A Lua surge.

Crescente, cheia, minguante.

Lua nova.

E Lua é minha de novo.

Assim como o ano é meu. De novo.

Ano novo.

 

 

December 23, 2011

As mentiras

Disseram que  eram feitos um para o outro.

Disseram que eram almas gêmeas.

Disseram que se completavam.

Disseram que os opostos se atraiam.

Disseram, enfim, as mentiras de praxe.

Disseram que conversariam sobre tudo, e que seria só enquanto fosse bom.

Disseram, como disse, as mentiras de praxe.

Acabou que não eram assim perfeitos um para o outro, como sempre se soube.

Disseram então algumas das verdades que surgiram no caminho.

Algumas meia verdades também. Ou quem sabe, mais mentiras inteiras.

Mas aí, já não mentiam um para o outro.

Mentiam para si mesmos.

E seguiram, cada qual seu rumo, contando a si mesmos mentiras sobre o que passou.

Ou, quem sabe, sobre o que nunca houve.

Fim.

December 6, 2011

Não consigo controlar

Olho as fotos de nós dois, e fico lembrando das coisas boas

Parei de querer saber o que ele está fazendo, o que está pensando, o que está falando, porque ainda dói, e as vezes, dói mais ainda por pensar que afinal, desde sempre, nunca podia ter “dado certo”.

Alimento a saudade, cada vez mais anoréxica, dos momentos de prazer e sorrisos compartilhados.

Lavando o quintal e você atrapalhando, me molhando toda e chamando a atenção dos vizinhos.

Fazendo comida e mexendo no computador.

Me acordando com beijos quando eu cochilava na hora do almoço.

Outro dia acordei assim, de um sonho no meio do sonho, e sonhei com um beijo e um afago.

Mas não eram os dele.

Já não era sem tempo.

Saudade tem fome, se a gente não alimenta, ela míngua.

Estou matando a minha de outros sabores, alimentando outras vontades.

Não consigo controlar.

Estou viva, cada dia mais.

Quanto disso devo a ele, por me despertar de uma letargia, não sei.

Já paguei minha divida com as saudades, já não quero mais doer.

Quero o gozo infindo, aquele que parece a morte.

E acordar em outros braços.

 

December 2, 2011

Onde se come o pão, se devora a carne

O que rolou hoje foi uma loucura.

Estou chocada com minha capacidade de ligar o foda-se ao máximo e não pensar nas consequências.

Sabe aquelas fantasias que a gente tem, de fazer sexo em lugares, bem, digamos, inusitados.

Eu. Trepei. Na. Minha. Sala.

o.O

Jogamos as coisas da mesa no chão, e trepamos de madrugada.

Foi fantástico.

Dose cavalar de tesão.

 

Agora, vai ser dose lidar com as fofocas, que já começaram.

E vou ter que fingir que nada aconteceu, e não tratá-lo de forma diferente.

Pronto.

Uma das fantasias mais loucas que já tive, realizada.

Nunca mais conseguirei trabalhar naquela sala sem ficar lembrando do pau dele dentro de mim.

Tirar as roupas dele e descobrir que por baixo delas há um caminho de perdição.

Branquinho. Magro e definido. Lisinho.

Um pau lindo, rosado, duro.

Palavras ditas, com aquelas coisas que fazem o tesão escorrer pelas coxas.

Chupão digno de nota.

Trabalhar maquiada hoje, para disfarçar, e ainda assim, saber que por onde passo, os outros estão olhando e invejando.

No café, eu percebi o clima de “ele é foda”, as congratulações mal disfarçadas, os olhares de soslaio para conferir a marca que ele me deixou, bem à vista.

Um já foi.

Faltam vários, ainda…

Uma tropa de choque a passar em revista.

November 19, 2011

Obliterar…

Meu sorriso não chega aos olhos.

É como o sol que por trás das nuvens da chuva fina que cai no meio da tarde.

Não chega a fazer arco-íris na melancolia que toma conta de mim.

Pequenas vitórias, como realizar um bom trabalho, ou não o procurar pelas redes, ou não pegar a velha camiseta que eu escondi no fundo da gaveta, não obliteram a dor.

O Sol não chega pra mim. E nem a Lua.

A Lua, que era minha, a minha Regente, minha Deusa, meu signo, agora não me pertence mais.

Eu quase a odeio, por me lembrar do que passou por mim.

Até minha lua me tomaram.

Assim como minhas ruas não são mais minhas, minha casa não é mais minha, meus bares não são mais meus, meus livros, meus filmes.

Mas isso eu perdoaria fácil, eu obliteraria.

(gostei dessa palavra, sempre quis usar, mas ela é meio dramática e exagerada, rebuscada até…)

Mas minha Selene, meu satélite, meu signo, meu simbolo da volubilidade, meu sinal?

O sol nunca foi meu. Eu sou da noite, do escuro, da neblina e da chuva. Da Lua. Mas eu agora anseio pelo sol.

Pelo sol chegando por trás da chuva, e fazendo arco-iris na esquina.

Pelo sol chegando como uma risada que perpassa os olhos, que faz cócegas na alma.

Pelo Sol, eclipsando a Lua que sempre foi minha, mas hoje não mais.

Eu quero o Sol e as outras estrelas, eu quero o sorriso e a risada.

Mas hoje eu ainda sou Lua, minguante, escondida atrás das nuvens da tristeza e da melancolia.

Sou alegria falsa, que não chega aos olhos.

Sou risada metálica, que arranha o coração.

Quero ser sorriso, quero ser calor, quero ser.

Quero obliterar. Tudo.

November 6, 2011

Não se porque ainda escrevo aqui. Não sei porque escrevo. Porque vivo, porque sonho, porque sofro, porque choro.

Não sei.

Penso em você.

Penso em você o tempo todo, esses dias.

Queria que você também pensasse em mim.

Queria que soubesse de mim, que me procurasse como eu te procuro.

Queria estar deitada perto de você, mesmo que só um pouquinho.

Queria mais. Só um pouquinho. Mais.

October 27, 2011

Sozinha

Estou tirando tudo do meu lugar.

Estou voltando para onde não sou mais quem eu era.

A ida foi feliz, compartilhada, risada.

A volta é dor, é cansaço, é saudade.

Encontrar, quando desmontava o guardarroupas enorme que eu comprei para ancorar nossa vida junto, uma cueca dele, caída, atrás da gaveta.

Desmontei.

 

Mesmo que eu não siga seguindo o passado, ele vem. Ele aparece.

Ele pauta o meu futuro, ele pauta o meu medo, o meu embaraço, a minha tristeza.

Será que vou ser capaz de ser de novo?

Porque hoje, debaixo de uma chuva torrencial, eu só quero sentar e chorar, deixar tudo molhar e se acabar, como eu.

 

October 11, 2011

Bullet in the head

Rage against the machine.

Que contra o sistema que nada. Contra você.

A logística foi mais difícil de ser planejada que de ser executada.

Conseguir a identidade falsa, a peruca loira. A arma.

Descobrir o endereço não foi nada difícil. Vigiar o lugar foi meio tenebroso, mas ao mesmo tempo, divertido.

Ver você chegar, sair, voltar. Sem saber que eu estava ali.

Cheguei a ter pena. Cheguei? Na verdade, não.

Meu plano era perfeito. É perfeito. Ninguém nunca saberá quem você irritou mais, quem teria tempo, oportunidade, motivo suficiente para cruzar uma fronteira e ir parar naquele fim de mundo, naquela portinha, em um carro alugado naquelas agências que não ligam pra nada se vc pagar em dinheiro. Imagino que elas tenham suas formas de recuperar o carro, se eu não devolver. Mas eu vou devolver. Claro que vou. Não vou roubar nada, só terminar um assunto espinhoso.

E a cachorra. Claro, a cachorra. Esse foi o problema que mais me perturbou. Seria mais fácil se ela não estivesse aí, mas…

Duplo homicídio. Duas balas, direto na cabeça. Nuca. Estilo execução. Acho que o fato de você continuar a fumar o seu baseado vai ajudar na investigação. Na dúvida, eu levei um bom pacote, para não deixar dúvidas. Nem precisei deixar na cena, o seu já fez efeito suficiente. Acho que ela devia gostar também, de um jeito que eu nunca curti.

O sangue tem um cheiro doce. E os miolos não se espalharam tanto. Eu devia ter escolhido uma doze, se queria mais bagunça. Mas um três-oitão é tão eficiente quanto, e faz bem menos volume  na bagagem.

O sangue é viscoso. Lembra que eu te falei, que parecia grosso, naquele duplo homicídio da praça? Mesmo antes de coagular, e claro que não fiquei aí tempo suficiente para deixar coagular. Saí logo depois dos disparos, de conferir a pulsação e ter certeza do fim. Do seu fim. Ela? Ela foi “efeito colateral”, na guerra, inocente morre. Não precisava ser ela, sabe. A outra serviria melhor ao meu propósito.

Teria sido perfeito, na verdade, se fosse a outra, aquela. Podia servir melhor ao meu plano, seria o motivo perfeito para outra pessoa ter feito o que EU fiz.

Lembra, como a gente ria, combinando um assassinato em massa? Você nunca achou que eu seria capaz. Mas eu sou. Eu fui. E seu olhar de ódio impotente, nossa, como me encheu de deleite! Eu tive até tesão, ali, naquela sala, com vocês dois me olhando, com ódio, com medo, com dúvida. Dúvida sobre o que falar, sobre como agir, sobre como reagir à minha frieza e indiferença. Nada me faria parar, ela percebeu antes de você.

Você achava que me desvendava, mas nunca me conheceu. Tanto quanto eu te inventei, você me inventou. Inventou a primeira, a que te encantou, e inventou a última, a que você deixou. Você nunca soube quem eu realmente sou.

Eu sou má. Eu sou capaz de matar. E de me safar de homicídio.

Eu matei você.

E a cachorra, bem…

Antes de voltar, eu joguei fora a arma. Numeração raspada, comprada em um posto na beira da estrada. Engraçado como quem me vendeu me temeu. Claro que quem vende uma arma sabe o que quem comprou vai fazer. Contra si ou contra outro. E aquele, aquele nunca mais vai vender arma nenhuma pra ninguém. Afinal, eu precisava testar a mercadoria.

Saí dali, deixei o carro no hotel fuleiro onde me hospedei. Peguei um táxi e fui para o terminal. Ônibus de volta, e dali, direto para o aeroporto.

Eu sabia, ah, como eu sabia, que nunca iriam chegar até mim.

Nunca ninguém saberia que eu estourei seus miolos, como você estourou meu coração. Crime hediondo. Ambos viciados. As família inconsoláveis.

E eu, em Buenos Aires, assistindo um tango e fumando um cigarro.

A fumaça, suja e fedorenta, me envolve como um casulo. E eu rio, meio sufocada com a simplicidade da morte. E tomo outro gole de vinho.Minhas mãos tremem. É o frio, digo a mim mesma. É o frio.

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